Enquanto a bebé está a tentar pôr sozinha a chupeta que lhe caiu pela 12ª vez (às vezes consegue sozinha, não sei bem como, mas lá consegue...), eu tento fazer o jantar, ou almoço, ou passo a ferro, ou estendo roupinhas, ou passo a esfregona na cozinha, ou esterilizo biberons, ou faço a alcofa de lavado, ou preparo o saco para sair para o supermercado porque faltam fraldas, ou faço o biberon de suplemento, ou tento dormir uma meia hora, ou tento limpar a mancha de leite que caiu no sofá, ou tiro o excesso de leite materno com a bomba, ou, ou, ou...
A minha casa está um pandemónio. Há fraldas de pano por todo o lado, biberons a secar por todo o balcão da cozinha, mantinhas espalhadas por todo o lado, acessórios da bomba extractora de leite no braço do sofá, receitas da farmácia na mesa de entrada, o carrinho da bebé atrás do sofá a interromper a passagem (mas onde o hei-de colocar?), suporte da banheira de bebé a interromper a entrada na casa-de-banho, caixinhas de pomadas e gotas na minha mesinha de cabeceira, o saco do lixo completamente a abarrotar de fraldas sujas, e tão pouco tempo ou oportunidade para arrumar tudo! A minha casa é, agora mais do que nunca, a verdadeira "casa da mãe Joana".
Mas, já agora, de onde vem esta expressão? Sempre tive curiosidade. Recorramos à Wikipedia...
Casa-da-mãe-joana é uma expressão de língua portuguesa que significa o lugar ou situação onde vale tudo, sem ordem, onde predomina a confusão, a balbúrdia e a desorganização. A sua origem remonta ao século XIV. Parece que uma tal Joana I de Nápoles (rainha de Nápoles e condessa de Provença), que viveu entre os anos 1326 e 1382, teve uma vida atribulada. Segundo alguns autores, teve de se mudar para Avignon, França, depois de se ter envolvido numa conspiração que resultou na morte do seu marido André. Segundo outros autores a ida para França deveu-se à expulsão da Igreja por conduta indevida.
Joana regulamentou os bordéis da cidade onde vivia refugiada. Uma das normas dizia: "O lugar terá uma porta por onde todos possam entrar." Em Portugal, a expressão paço-da-mãe-joana tornou-se sinónimo de prostíbulo. A expressão foi depois levada para o Brasil mas o termo paço, por não ser de linguagem popular, foi substituído por casa. A expressão "Casa-da-mãe-Joana" passou a ser usada para indicar o lugar ou situação em que cada um faz o que quer, onde imperam a desordem e a desorganização.
Por um lado, atrapalha-me ver a casa assim, um caos. Por outro, surge-me sempre um sorriso "bobo" na cara porque o motivo da desarrumação é tão bonito e as coisinhas dela tão mimosas... Já não me lembro de quando não era mãe. Foi há menos de um mês mas parece que foi há uma vida atrás. Sinto que sou mãe desde sempre. E surpreendo-me sempre que olho para ela e me dou conta que é "minha" e é do amor da minha vida. Eu sou a mãe dela, sou mesmo eu! Foi mesmo a mim que a vida resolveu "honrar" com esta filhota linda. Sinto-me tão sortuda, honrada, bafejada pelo amor!
Welcome my baby girl!!!
A Francisca já se adaptou à casa e já é tudo dela, já "marcou" o seu território e o apartamento cheira a bebé. Há quase 10 dias começou a preocupar o papá e a mamã porque nãao ganhava peso. Quase 3 semanas e o mesmo peso do nascimento: 2, 710 Kg. A pediatra quis vê-la 3 dias depois. Tinha 2,690 Kg... Deu-nos alguns truques para ela não ser tão preguiçosa a mamar e dois dias depois tínhamos de voltar a pesá-la. Outros dois dias e uma mastite depois, tinha menos peso, 2,680 Kg. Toca a dar uma pequena ajuda com suplemento. Mais dois dias e estávamos a pesá-la novamente: 2,660 Kg. Já tinha 50 cm mas nada de engordar. A situação já era para alarmar. Hoje e depois de aumentar a dose de suplemento, sem nunca deixar de dar leite materno (mesmo que tenha de ser tirado com a bomba), tinha 2,820 Kg. Uf... o alívio foi grande, muito grande!
Keep on growing, wee daughter!!!
"Joaneologismo" e "private word" para um amor que de dueto crescido se multiplica em trio afinado a choro de recém-nascido. A aventura de ser mãe pela primeira vez. A aventura da vida. A minha aventura. Aqui semi-contada para memória.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Pré, Durante e Pós- Parto
Toquem os Sinos!
Bem-vinda ao mundo Francisca! Deus te abençoe, te cuide e guarde e nos dê as melhores armas para sermos uns bons pais. Parecias uma pétala, um botãozinho de rosa, uma papoila, uma flor ao nascer. Se já não nos tivéssemos decidido pelo nome, talvez te chamasse Flor ou Papoila. Nasceste pequenina, 46,5 cm, 2,705 Kg, mignonne como dizem os franceses. Há palavras noutros idiomas ideais, sem tradução, uma delas é mignonne.
Nasceste em Braga, na cidade dos Sinos, do frio e do calor, do Bom Jesus. Na cidade do teu pai. No Minho verde-musgo. Numa madrugada de muita muita muita chuva.
Pré-parto
A minha teoria é que tudo começou na quarta-feira, dia 17. Fui ao médico obstetra e ele fez-me, como ele bem disse, uma "maldade": puxou-me o colo do útero para a frente, já que estava muito posterior. Tive umas dorezitas que chegaram a incomodar mas depois passaram...
Dia 19 às 5:55 da manhã "expulsei" o tal "rolhão mucoso". Mais tarde, perto das 7:00 um pouco de líquido. Mmmm...é melhor avisar o maridão. Acordei-o com cuidadinho, informei-o do que se estava a passar, e fui-me deitar de novo: tinha de descansar o máximo que pudesse. Como o líquido não saiu em "jorro", não me preocupei muito.
Pelas 7:30 começam as contracções. Muito leves e muito espaçadas, como dores menstruais. Continuei a domir, ciente que o momento se aproximava mas não me exaltando, tranquila, a dormitar, olhando para a barriga, tocando-lhe e pensando: "adeus barriga de grávida, até uma próxima vez, espero...".
Tomei banho, o pequeno-almoço, almocei, joguei "minesweeper", actualizei o facebook, vi os emails, vi televisão, fiz exercícios "basculares", agachamentos, tentei ioga, passei a ferro umas roupinhas da bebé... até que as contracções se tornaram mais fortes, embora espaçadas a 10 minutos. Eram 19:00 horas quando saímos a caminho do Hospital de S. Marcos. Eu já estava com contracções de 8 em 8 minutos.
Feita a ficha, fui atendida por uma médica jovem, bonita e simpática. Ela ralhou-me logo porque me tinha saído líquido amniótico há 12 horas atrás (devia ter vindo mais cedo para o hospital, pelos vistos) e agora tinha de tomar um antibiótico. Descansou-me porque me mediu 4 cm de dilatação (e eu tinha imenso receio de não "dilatar" e me terem de dar ocitocina) e viu que a bebé já estava, finalmente, "encaixada"!!! Uf... Ela bem que me dizia, lá de dentro: "não te preocupes mamã, eu sou espertinha e vou encaixar".
Entreguei-lhe o meu "plano de parto" e prometeram segui-lo até onde pudessem.
Parto
Vesti a "camisa de noite" do hospital e o Miguel foi buscar o kit de recolha de células estaminais. Fui para a sala de partos. Apareceu uma enfermeira-estudante chamada Joana que me explicava tim-tim por tim-tim o que me estava a fazer. Depois apareceu outra enfermeira, muito simpática, que me pôs o CTG e me disse que me ia dar um pouco de ocitocina para "regular as contracções". Nesta altura as contracções já estavam demasiado próximas e já apareciam alguma no ecrã a 100% de limite de dor.
De repente no ecrã as pulsações da bebé baixaram repentinamente e eu pensei que era por me ter mexido com as dores. Pelos vistos não era, a enfermeira apareceu a correr e tirou-me logo a ocitocina porque "a bebé não tinha gostado", e acrescentou: "Isto vai ter de ser mesmo ao natural, já está com 8 cm de dilatação." Toca a chamar a anestesista. As contracções estavam de repente espaçadas a 1 minuto. A anestesista que me deu a epidural teve alguma dificuldade porque as contracções vinham em catadupa. De repente, um alívio... a epidural estava a funcionar. Viva a epidural! Se fosse um nome bonito, a miúda tinha-se chamado Francisca Epidural!
Menos de duas horas depois, já passava da meia-noite (já era, portanto, dia 20), chega a médica, a tal que me atendeu na urgência de obstetrícia. Vinha do Porto, foi levar uma doente na ambulância e pelos vistos bateram num carro de ciganos e a coisa por pouco não deu "pró torto". Esta história a médica ia contando, muito animada, ao mesmo tempo que eu dizia à enfermeira: "olhe, já estou a sentir 'aquela' vontade de puxar de que me falou...". Meu dito, meu feito, toca a puxar. De repente estavam mais pessoas na sala mas nem reparei quem, agarrei-me a uns ferros na parte de baixo da cama e puxei, puxei, puxei. Pareceram-me só uns 5 'puxos' mas o Miguel disse que foram muitos mais. Entretanto a médica avisa-me que vai ter de cortar um pouco porque a bebé está 'entalada' e que o pai vai ter de carregar um pouco na minha barriga. Dois procedimentos que eu não estava muito disposta a aceitar, mas teve que ser. Quase vomitei o estômago! Valeu a pena porque no segundo 'puxo' e depois de uma sensação horrorosa de aflição, mais do que dor, como se tivesse um melão entalado, sinto uma coisa escorregadia a sair de mim, e a médica muito aflita a desenrolar o cordão umbilical à volta do pescoço.
A Francisca não chorou, só reclamou um pouco. Mal nasceu a médica e a enfermeira inspeccionaram-na, o pai cortou o cordão, e outra enfermeira retirou o sangue do cordão umbilical. O pai enfiou-lhe o gorrinho e começou a gargalhar: tapava-lhe os olhos, era enorme, teve de ser dobrado. E depois colocaram-na no meu colo. Que sensação! Ainda há minutos estava dentro de mim e agora estava ali, encolhida nos meus braços, e cheirava a mim, ao meu sangue e fluídos. Muito pequenita mas linda, linda. Cada vez mais linda e rosada à medida que passavam os minutos. E cheia de vontade de mamar! Pimba, toma lá um 'shot' de colostro.
O Miguel teve de se ir embora, depois de bastantes mensagens, alguns telefonemas e muitos mimos. A bebé ficou ao meu lado na cama - não havia bercinhos suficientes, pelos vistos. Tive sorte, fiquei num quarto com casa-de-banho, só com uma companheira. Do quarto via-se uma capela e ouviam-se sinos. Bem-vinda minha filha, toquem e repiquem os sinos, nasceste abençoada, com saúde, num país sem guerra, com um pai e uma mãe ansiosos por te amar e te criar. Bem-vinda! Bem-vinda!
Pós-parto
No meu caso, está a ser pior o pós-parto do que foi o parto. Nos dias seguintes ao parto, é muito duro ficar no hospital 3 dias, à "mercê" de enfermeiras nem sempre simpáticas, de comidas sem sabor, de ensinamentos e teorias várias sobre o nosso bebé, sem companhia do marido durante a noite, com um cansaço extremo, sono extremo, preocupação extrema, o ruído de vários bebés a chorar, várias mães a chorar, dúvidas, dúvidas... E dores, dores no peito, dores na barriga, dores nas costas e a impossibilidade de nos sentarmos por causa da dor perineal... É preciso ir muito segura, muito mesmo. Com a cabeça limpa. Mas isto, claro, é quase impossível. O turbilhão de emoções e as novas exigências que se impõem de um minuto para outro não nos permitem ter a segurança e a cabeça limpa que tínhamos no minuto antes de nos colocarem o nosso bebé no colo. Por isso decidi seguir os meus instintos e contemplar a minha filhota. Pensar: "todas as mães já passaram por isto, não és a primeira nem serás a última" ajuda bastante.
O que (ainda) me angustia mais é não saber porque a minha bebé chora. E isto acontece sempre em algum momento do dia. Não saber o que fazer quando já se deu de mamar até o peito doer, quando a fralda está limpa, quando não parece ter cólicas, está quentinha e já a enchemos de mimos e colo.
E a tortura de não dormir. Ou dormir pouco. Duas horas + uma hora e meia + meia horita e pronto, temos de enfrentar um novo dia. O marido já foi trabalhar e temos de tomar banho com a bebé à porta porque há aquele medo que aconteça qualquer coisa, e os mamilos doem e teimam em doer, por mais pomadas e truques que se apliquem, e daqui a duas horas ela vai querer mamar de novo e vai doer de novo, mesmo corrigindo a pega, mesmo com paciência e carinho. E 15 dias depois do parto ainda nada nos serve, só leggings e roupa de grávida. E ter de fazer ginástica do tempo para conseguir sair de casa e arejar, a tempo de voltar para mamar outra vez, e mesmo assim ser criticada pelas senhoras da mercearia: "Ai, tão novinha e já sai à rua, com este frio! Coitadinha!" Mesmo se a miúda for quase sufocada com mantas e gorrinhos...
E os comentários da família... xiii esses chateiam. Antes não chateavam porque me criticava a mim, Joana. Agora critica a mim, mãe da Francisca, e à frente dela!
Quando olho para ela e ela para mim, com aquelas expressões engraçadas, e com 15 dias sorri para mim e parece que me quer dizer qualquer coisa, tudo se esquece. Ainda por cima é tão parecida comigo! É uma benção na nossa vida. Abraçá-la é sentir amor, na sua plenitude. Amor puro e fresco, acabado de nascer. Sim, estou desejosa que fale, ande, durma 12 horas seguidas mas, por outro lado, cada dia que passa já significa saudades da vidinha de recém-nascida dela, da vidinha de recém-mamã minha.
Bem-vinda ao mundo Francisca! Deus te abençoe, te cuide e guarde e nos dê as melhores armas para sermos uns bons pais. Parecias uma pétala, um botãozinho de rosa, uma papoila, uma flor ao nascer. Se já não nos tivéssemos decidido pelo nome, talvez te chamasse Flor ou Papoila. Nasceste pequenina, 46,5 cm, 2,705 Kg, mignonne como dizem os franceses. Há palavras noutros idiomas ideais, sem tradução, uma delas é mignonne.
Nasceste em Braga, na cidade dos Sinos, do frio e do calor, do Bom Jesus. Na cidade do teu pai. No Minho verde-musgo. Numa madrugada de muita muita muita chuva.
Pré-parto
A minha teoria é que tudo começou na quarta-feira, dia 17. Fui ao médico obstetra e ele fez-me, como ele bem disse, uma "maldade": puxou-me o colo do útero para a frente, já que estava muito posterior. Tive umas dorezitas que chegaram a incomodar mas depois passaram...
Dia 19 às 5:55 da manhã "expulsei" o tal "rolhão mucoso". Mais tarde, perto das 7:00 um pouco de líquido. Mmmm...é melhor avisar o maridão. Acordei-o com cuidadinho, informei-o do que se estava a passar, e fui-me deitar de novo: tinha de descansar o máximo que pudesse. Como o líquido não saiu em "jorro", não me preocupei muito.
Pelas 7:30 começam as contracções. Muito leves e muito espaçadas, como dores menstruais. Continuei a domir, ciente que o momento se aproximava mas não me exaltando, tranquila, a dormitar, olhando para a barriga, tocando-lhe e pensando: "adeus barriga de grávida, até uma próxima vez, espero...".
Tomei banho, o pequeno-almoço, almocei, joguei "minesweeper", actualizei o facebook, vi os emails, vi televisão, fiz exercícios "basculares", agachamentos, tentei ioga, passei a ferro umas roupinhas da bebé... até que as contracções se tornaram mais fortes, embora espaçadas a 10 minutos. Eram 19:00 horas quando saímos a caminho do Hospital de S. Marcos. Eu já estava com contracções de 8 em 8 minutos.
Feita a ficha, fui atendida por uma médica jovem, bonita e simpática. Ela ralhou-me logo porque me tinha saído líquido amniótico há 12 horas atrás (devia ter vindo mais cedo para o hospital, pelos vistos) e agora tinha de tomar um antibiótico. Descansou-me porque me mediu 4 cm de dilatação (e eu tinha imenso receio de não "dilatar" e me terem de dar ocitocina) e viu que a bebé já estava, finalmente, "encaixada"!!! Uf... Ela bem que me dizia, lá de dentro: "não te preocupes mamã, eu sou espertinha e vou encaixar".
Entreguei-lhe o meu "plano de parto" e prometeram segui-lo até onde pudessem.
Parto
Vesti a "camisa de noite" do hospital e o Miguel foi buscar o kit de recolha de células estaminais. Fui para a sala de partos. Apareceu uma enfermeira-estudante chamada Joana que me explicava tim-tim por tim-tim o que me estava a fazer. Depois apareceu outra enfermeira, muito simpática, que me pôs o CTG e me disse que me ia dar um pouco de ocitocina para "regular as contracções". Nesta altura as contracções já estavam demasiado próximas e já apareciam alguma no ecrã a 100% de limite de dor.
De repente no ecrã as pulsações da bebé baixaram repentinamente e eu pensei que era por me ter mexido com as dores. Pelos vistos não era, a enfermeira apareceu a correr e tirou-me logo a ocitocina porque "a bebé não tinha gostado", e acrescentou: "Isto vai ter de ser mesmo ao natural, já está com 8 cm de dilatação." Toca a chamar a anestesista. As contracções estavam de repente espaçadas a 1 minuto. A anestesista que me deu a epidural teve alguma dificuldade porque as contracções vinham em catadupa. De repente, um alívio... a epidural estava a funcionar. Viva a epidural! Se fosse um nome bonito, a miúda tinha-se chamado Francisca Epidural!
Menos de duas horas depois, já passava da meia-noite (já era, portanto, dia 20), chega a médica, a tal que me atendeu na urgência de obstetrícia. Vinha do Porto, foi levar uma doente na ambulância e pelos vistos bateram num carro de ciganos e a coisa por pouco não deu "pró torto". Esta história a médica ia contando, muito animada, ao mesmo tempo que eu dizia à enfermeira: "olhe, já estou a sentir 'aquela' vontade de puxar de que me falou...". Meu dito, meu feito, toca a puxar. De repente estavam mais pessoas na sala mas nem reparei quem, agarrei-me a uns ferros na parte de baixo da cama e puxei, puxei, puxei. Pareceram-me só uns 5 'puxos' mas o Miguel disse que foram muitos mais. Entretanto a médica avisa-me que vai ter de cortar um pouco porque a bebé está 'entalada' e que o pai vai ter de carregar um pouco na minha barriga. Dois procedimentos que eu não estava muito disposta a aceitar, mas teve que ser. Quase vomitei o estômago! Valeu a pena porque no segundo 'puxo' e depois de uma sensação horrorosa de aflição, mais do que dor, como se tivesse um melão entalado, sinto uma coisa escorregadia a sair de mim, e a médica muito aflita a desenrolar o cordão umbilical à volta do pescoço.
A Francisca não chorou, só reclamou um pouco. Mal nasceu a médica e a enfermeira inspeccionaram-na, o pai cortou o cordão, e outra enfermeira retirou o sangue do cordão umbilical. O pai enfiou-lhe o gorrinho e começou a gargalhar: tapava-lhe os olhos, era enorme, teve de ser dobrado. E depois colocaram-na no meu colo. Que sensação! Ainda há minutos estava dentro de mim e agora estava ali, encolhida nos meus braços, e cheirava a mim, ao meu sangue e fluídos. Muito pequenita mas linda, linda. Cada vez mais linda e rosada à medida que passavam os minutos. E cheia de vontade de mamar! Pimba, toma lá um 'shot' de colostro.
O Miguel teve de se ir embora, depois de bastantes mensagens, alguns telefonemas e muitos mimos. A bebé ficou ao meu lado na cama - não havia bercinhos suficientes, pelos vistos. Tive sorte, fiquei num quarto com casa-de-banho, só com uma companheira. Do quarto via-se uma capela e ouviam-se sinos. Bem-vinda minha filha, toquem e repiquem os sinos, nasceste abençoada, com saúde, num país sem guerra, com um pai e uma mãe ansiosos por te amar e te criar. Bem-vinda! Bem-vinda!
Pós-parto
No meu caso, está a ser pior o pós-parto do que foi o parto. Nos dias seguintes ao parto, é muito duro ficar no hospital 3 dias, à "mercê" de enfermeiras nem sempre simpáticas, de comidas sem sabor, de ensinamentos e teorias várias sobre o nosso bebé, sem companhia do marido durante a noite, com um cansaço extremo, sono extremo, preocupação extrema, o ruído de vários bebés a chorar, várias mães a chorar, dúvidas, dúvidas... E dores, dores no peito, dores na barriga, dores nas costas e a impossibilidade de nos sentarmos por causa da dor perineal... É preciso ir muito segura, muito mesmo. Com a cabeça limpa. Mas isto, claro, é quase impossível. O turbilhão de emoções e as novas exigências que se impõem de um minuto para outro não nos permitem ter a segurança e a cabeça limpa que tínhamos no minuto antes de nos colocarem o nosso bebé no colo. Por isso decidi seguir os meus instintos e contemplar a minha filhota. Pensar: "todas as mães já passaram por isto, não és a primeira nem serás a última" ajuda bastante.
O que (ainda) me angustia mais é não saber porque a minha bebé chora. E isto acontece sempre em algum momento do dia. Não saber o que fazer quando já se deu de mamar até o peito doer, quando a fralda está limpa, quando não parece ter cólicas, está quentinha e já a enchemos de mimos e colo.
E a tortura de não dormir. Ou dormir pouco. Duas horas + uma hora e meia + meia horita e pronto, temos de enfrentar um novo dia. O marido já foi trabalhar e temos de tomar banho com a bebé à porta porque há aquele medo que aconteça qualquer coisa, e os mamilos doem e teimam em doer, por mais pomadas e truques que se apliquem, e daqui a duas horas ela vai querer mamar de novo e vai doer de novo, mesmo corrigindo a pega, mesmo com paciência e carinho. E 15 dias depois do parto ainda nada nos serve, só leggings e roupa de grávida. E ter de fazer ginástica do tempo para conseguir sair de casa e arejar, a tempo de voltar para mamar outra vez, e mesmo assim ser criticada pelas senhoras da mercearia: "Ai, tão novinha e já sai à rua, com este frio! Coitadinha!" Mesmo se a miúda for quase sufocada com mantas e gorrinhos...
E os comentários da família... xiii esses chateiam. Antes não chateavam porque me criticava a mim, Joana. Agora critica a mim, mãe da Francisca, e à frente dela!
Quando olho para ela e ela para mim, com aquelas expressões engraçadas, e com 15 dias sorri para mim e parece que me quer dizer qualquer coisa, tudo se esquece. Ainda por cima é tão parecida comigo! É uma benção na nossa vida. Abraçá-la é sentir amor, na sua plenitude. Amor puro e fresco, acabado de nascer. Sim, estou desejosa que fale, ande, durma 12 horas seguidas mas, por outro lado, cada dia que passa já significa saudades da vidinha de recém-nascida dela, da vidinha de recém-mamã minha.
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