sábado, 2 de outubro de 2010

Âncoras

Nas aulas de preparação para o parto estamos a aprender o "primeiro tipo de respiração". Para ser utilizado entre contracções, para oxigenar a mãe e o bebé, para relaxar. É-nos pedido para inspirar profundamente e imaginar que se está a cheirar profundamente um aroma adorado, encher bem os pulmões, e ao inspirar e expirar, com calma, transportar a nossa mente para situações vividas ou imaginadas que nos transmitam paz, as nossas "âncoras". Todos temos várias âncoras. As minhas estão na infância, pelos vistos. Tenho 3. Uma é inevitável, aparece sempre.
Lembro-me dos passeios a Vieira do Minho e a Vila Nova de Cerveira, à estalagem da Boega. Havia uns tanques, uns laguinhos ou qualquer coisa velha de pedra com água onde crescia musgo verde. Este musgo tinha um cheiro maravilhoso e é dos cheiros que eu mais me recordo na infância. Um odor a inocência e vida fresca. A férias e Outono. A Portugal. Esta é uma das minhas âncoras.
A minha segunda âncora é o aroma a dunas do Algarve. Lembro-me a caminho da praia do Cabeço, eu e o meu irmão, a competir para ver quem avistava a bandeira, normalmente verde, primeiro. A caminho da praia as dunas tinham aquele cheiro doce e quente, que ainda agora me transporte para a calma, para a comodidade e o calor.
A terceira âncora é a Foz do Douro. Os cafés com vento que os meus pais tomavam na marginal, bem pertinho da praia do Molhe. Aquele cheiro a rio com oceano atlântico, a rochas espancadas pelo mar. Aqueles fins de semana onde a minha avó Isaura preparava o seu arrozinho solto com salsa. Tudo coisas boas.
Ainda não encontrei mais âncoras mas a cada aula acrescento uma ao meu repertório. Espero lembrar-me de as usar quando o útero contrair e a dor se impuser.
Gosto tanto de estar a recordar-me, com cada vez mais força, da minha infância. É tão bom saber que a minha filha vai ser criança e ter esta magia, esta inocência e frescura que agora recordo. Espero poder passear muito com ela, por todo Portugal, fazer com que cheire as coisas boas do nosso Portugal, o queijo de São Jorge, o musgo, o mar e os mexilhões, os cominhos, as dunas, os cravos, o pão-de-ló, a aletria acabada de fazer, as amendoeiras em flor, os campos de mimosas, as alfarrobeiras, as figueiras e tanta tanta coisa que não cabe aqui...

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